A Noite do Velório

Um caso do inspetor-chefe David Branco

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Quinta-feira, 10 de novembro de 2022

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19h00

O táxi deixa-me à porta e eu fico ali parado com o saco na mão, a olhar para a casa, como um parvo. O portão continua a arranhar o chão. Quinze anos e ninguém levantou aquele portão.

O Abílio abre-me a porta antes de eu tocar. Está mais gordo e tem menos cabelo e dá-me um abraço daqueles dele, que fazem doer as costelas. Depois é a Cristina, que cheira a casa. E a Paula, que chora assim que me vê e que fica zangada consigo própria por ter chorado.

A mãe está na sala. Puseram-na do lado da janela, onde ela gostava de se sentar, e eu fico ali um bocado sem saber o que dizer nestas alturas. Em alemão também não sabia.

Quando volto à cozinha estão os três encostados ao balcão e eu digo-lhes a coisa boa que trazia para dizer.

– Já está tudo tratado. Vocês não têm de pensar em nada.

Explico. A agência, o caixão, as flores, o anúncio, a missa amanhã às onze. Liguei de Estugarda na terça à noite, duas horas depois da Cristina me ligar a dizer que ela tinha partido de manhã, e deixei tudo fechado, está pago.

Sexta foi o mais cedo que consegui. Havia voo na quarta e não me deram a folga, e a mãe esteve dois dias na câmara da agência à minha espera, e isso eu não digo aqui em voz alta. Tinha marcado a sala da agência também, que é o que se faz agora, e foi a Cristina que me telefonou na quarta a dizer que a mãe tinha pedido em casa. Mudei tudo numa manhã. Trouxeram-na esta tarde, às quatro.

O Abílio e a Paula dizem obrigado. A Cristina enche a chaleira.

Fico contente. É a primeira coisa que faço por eles em anos, que não é simplesmente enviar dinheiro.

22h20

A cozinha é o único sítio quente da casa. As vizinhas trouxeram travessas a mais e comem-se de pé, à vez, e a dona Fátima do lado esteve aqui uma hora a contar como é que a mãe lhe emprestava a máquina de costura em mil novecentos e oitenta e tal. Alguém foi buscar a aguardente do meu pai, que deve ter doze anos. A dona Fátima diz duas vezes que já não se vê isto, que hoje é tudo naquelas salas com ar condicionado, e que a minha mãe sempre foi teimosa.

A Paula pergunta-me como é Estugarda no inverno e eu digo que é frio a sério, frio de vinte graus abaixo, mas que as casas são quentes de outra maneira, não é como aqui.

– Lá tudo funciona – digo. – Chateia, mas funciona.

Falo-lhes da biblioteca. É a coisa mais bonita que já vi e ninguém acredita quando eu digo que uma biblioteca é bonita, e tento explicar-lhes, e não consigo, e acabo a dizer que aquilo é branco e que parece que não tem fim.

– Um dia vão lá – digo. – A sério. Vão lá e vejam.

O Abílio ri-se e diz qualquer coisa que eu não apanho. Depois digo-lhes que tenho saudades do pão, e isto é verdade, passo o ano todo a ter saudades do pão.

00h30

O Abílio puxa-me para o quintal com a desculpa do cigarro e não é do cigarro. Diz-me que eu não faço ideia, e diz-mo três ou quatro vezes, e eu digo-lhe que mandei dinheiro todos os meses durante quinze anos e que nunca ninguém teve de me pedir nada.

Ele fica a olhar para mim como se eu tivesse acabado de lhe dar razão.

– Pois foi – diz. – Mandaste.

E depois levanta a voz, que é uma coisa que eu não lhe ouço desde que éramos putos.

– Tu não sais outra vez desta casa sem isto ficar resolvido.

Eu não fico assustado. Fico triste, porque percebo que ele andou quinze anos à espera de me dizer aquilo e que agora que o disse já não sabe o que é que vem a seguir.

Voltamos para dentro os dois e não se fala mais nisso.

01h10

Subo ao quarto da mãe porque quero estar ali sozinho cinco minutos. Está tudo como estava: a cama feita, o candeeiro dela na mesa de cabeceira, aquele com o pé de mármore que o pai trouxe de Espanha. Abro a gaveta sem procurar nada.

Está lá um caderno de capa preta, desses de escola. Abro-o e são números, páginas e páginas de números, letra da Cristina, três anos de números. Horas, doses, temperaturas. Todos os dias, durante três anos.

Sento-me na cama e vou ao fim, à última página escrita.

Segunda-feira.

23h00 — dose da noite. não quis a sopa

03h40 — acordada, a chamar por mim

03h50 — respiração 30. lábios roxos. tensão 8/5

04h05 — 112?

04h25 — falei com os dois. não chamamos. ficou decidido pelos três.

06h10 — parou

Depois tudo em branco. Três anos de letra miúda todos os dias sem falhar um, e a seguir àquela linha não há mais nada até ao fim do caderno.

Leio aquilo três vezes.

Em três anos de caderno não há uma única frase inteira. Há horas, doses, números, abreviaturas. A linha das quatro e vinte e cinco é a única vez em que a minha irmã precisou de escrever uma frase.

E a minha mãe está lá em baixo, na sala, do lado da janela.

02h00

A Cristina está a lavar chávenas e não se vira quando eu entro. Fico à porta.

– Ela não estava a dormir, Cristina.

A água continua a correr durante dois ou três segundos e depois ela fecha a torneira. Eu saio.

Não sei o que hei de dizer a seguir e por isso não digo nada, e subo, e sento-me no degrau do meio das escadas como fazia em miúdo, e fico ali a pensar o que é que se faz com uma coisa destas.

03h30

Volto ao quarto. Não acendo a luz, que há o candeeiro da rua a entrar pela janela e chega. Ajoelho-me ao pé da cama, que é uma coisa que não faço desde a primeira comunhão, e falo baixinho porque a casa está toda a dormir.

– Eu já sei, mãe. Li o caderno hoje.

Fica-me a mão em cima da colcha e o resto sai-me quase sem voz, com a cara virada para baixo, porque é a mim que estou a dizê-lo e não a ela.

– E não vou dizer nada a ninguém, nunca. Fica entre a mãe e eu.

Fico ali mais um bocado. Lá fora o cão do vizinho começa outra vez.

Ouço o soalho do corredor e viro-me.

– Tu? – digo. – Mas porquê?