De Segunda a Domingo
Um caso do inspetor-chefe David Branco
Quinta-feira, 18 de maio de 2023
1
08h10
O prédio ficava a meio da Rua de Arroios, numa daquelas fachadas de azulejo que ainda resistiam entre duas obras. O portão estava aberto e escorado com um tijolo, e a luz da escada acendia-se sozinha de vinte em vinte segundos, com um estalido seco, antes de voltar a desistir.
David Branco parou no primeiro degrau e deixou o corpo habituar-se ao cheiro. Pó velho, cera de chão, e por baixo disso o resto.
Rosa Antunes estava caída de bruços no patamar entre o primeiro andar e o rés do chão, com a cabeça virada para a parede e um braço esticado ao longo do corpo. Oitenta e um anos. Vivia no terceiro esquerdo, sem elevador, e subia e descia aquilo três vezes por dia desde 1974.
Tinha um casaco de lã abotoado até cima e sapatos de sair.
– Bom dia, sol de primavera – disse uma voz atrás dele.
Paiva vinha a subir com o casaco aberto.
– A PSP está cá desde um quarto para as sete. Chamaram-nos há uma hora, quando o graduado achou que aquilo não lhe cheirava bem. – Encolheu os ombros. – E já tenho uma senhora do quarto a explicar-me que isto – Olhou para a luz. – é da junta de freguesia, que nunca arranjam.
David já estava agachado, a dois palmos da mão da morta.
Paiva conhecia-o há tempo suficiente para saber o que aquilo queria dizer. Calou-se e ficou de pé, atrás dele, a olhar para o mesmo sítio sem saber ainda bem para o quê.
2
08h35
Francisco Carvalho chegou com a mala numa mão e o café da esquina na outra, e bebeu-o de um trago antes de calçar as luvas.
– Quem a encontrou?
– A vizinha do segundo – disse Paiva, a consultar o bloco. – Célia Freire, cinquenta e quatro anos. Saiu para o trabalho às seis e meia e deu com ela aqui. Ligou logo para o 112.
– E a família?
– Um filho. Hélder, que mora em Setúbal e vem uma vez por mês.
Francisco pousou a mala e agachou-se do outro lado do corpo, de frente para David. Ficaram os dois ali, calados, com ela entre eles e a luz da escada a apagar-se e a voltar.
– Conta-nos tudo, Chico – pediu David.
– Traumatismo craniano na região occipital.
– Compatível com a queda?
Francisco demorou a responder. Passou a luz da lanterna pelo lanço de escadas, de cima até ao patamar, devagar, e só depois voltou ao corpo.
– É o que eu queria falar contigo.
– Diz.
– Uma pessoa que cai um lanço destes não chega cá abaixo com uma ferida. Chega com várias. – Francisco apontou com a lanterna, ponto a ponto. – Bate com o ombro num degrau, com a anca noutro, apanha o cotovelo na parede, raspa as costas na aresta. Isso é físico, não depende de idade nem de sorte. São dezassete degraus, Branco. O corpo tem de pagar cada um deles.
– E ela não tem isso tudo, certo?
– Nem mais. Ela tem um traumatismo na nuca e mais nada. – Francisco levantou os olhos. – Nem uma nódoa negra num joelho. Nem uma raspadela num antebraço. Nem a meia rasgada.
Paiva, de pé atrás deles, deixou de escrever.
– Estás a dizer o quê exatamente?
– Estou a dizer que esta senhora não veio a rolar por aqui abaixo. – Francisco disse-o sem pressa nenhuma. – Ela foi colocada aqui, entendes?
Ficaram os três calados o tempo de a luz da escada se apagar e alguém, mais acima, carregar outra vez no botão.
– E há as mãos – acrescentou Francisco. – Uma pessoa que cai agarra-se. É automático, não se decide. Fica com o couro da palma em ferida, com as unhas partidas. – Pegou com dois dedos no pulso da mulher e virou-lhe a palma para cima, devagar. – Olha para isto.
A palma de Rosa Antunes estava limpa. As unhas estavam curtas e inteiras, com um resto de verniz claro em duas delas.
– Ela não se agarrou a nada – disse David.
– Não se agarrou a nada e não bateu em nada. Junta as duas coisas e diz-me tu o que sai.
– Que ela já ia apagada e que não caiu pelas escadas.
– É isso que vais ter no relatório do instituto, com outras palavras e mais cautela. – Francisco colocou-lhe a mão no chão outra vez, com cuidado. – O que eu te posso dizer aqui, agachado neste patamar, é que esta senhora não desceu estas escadas. Nem a dormir, nem acordada.
David levantou-se e ficou a olhar para o lanço todo, de baixo para cima, com as mãos nos bolsos do casaco.
Quem é que te trouxe até aqui?
3
09h05
O terceiro esquerdo cheirava a sopa da véspera. Era um apartamento pequeno e obsessivamente arrumado, daqueles onde cada objeto tem um sítio marcado por trinta anos de repetição. Panos de croché no aparador. Três fotografias, todas do mesmo rapaz em três idades diferentes. Uma televisão antiga com um pano por cima.
A porta estava fechada e trancada à chave. A chave estava no bolso do casaco dela.
– Ela trancou a porta – disse Paiva, e ouviu-se a si próprio a dizê-lo. – Ou alguém trancou.
David andava devagar pela sala, sem tocar em nada. Na mesa de apoio havia duas chávenas de chá, lavadas e viradas para baixo em cima de um pano.
Ficou a olhar para elas.
– Duas – disse Paiva.
– Duas.
Parou à entrada da cozinha.
Em cima da mesa, ao lado de outro pano dobrado, estava uma caixa de plástico transparente com sete tampas. Uma por dia. Em cada tampa, uma letra gravada em relevo, gasta pelo uso.
David ficou a olhar para ela sem se aproximar.
– Chico.
Francisco apareceu à porta.
– Anda aqui ver isto.
Os três aproximaram-se da mesa. A caixa estava fechada e via-se tudo através do plástico.
Segunda: vazia. Terça: vazia. Quarta: vazia.
Quinta: vazia.
Sexta: vazia.
Sábado e domingo ainda tinham os comprimidos lá dentro, cada um no seu sítio.
Paiva foi o primeiro a falar.
– Hoje é quinta.
– Hoje é quinta – confirmou David.
– Então falta ali a sexta.
– Falta ali a sexta, e a quinta também, que era a de hoje e que ela já não chegou a tomar. – David inclinou-se para o plástico, sem aproximar as mãos. – Duas doses fora do sítio. Não uma. Duas.
Francisco tirou uma fotografia, depois outra, depois uma terceira com a régua encostada.
– Toma ansiolítico ao jantar – disse, a ler o rótulo do frasco na bancada. – Se lhe deres três de uma vez, a uma mulher deste tamanho, ela apaga-se onde estiver.
– Quanto tempo demora?
– Meia hora, quarenta minutos. – Francisco pousou o frasco no sítio exato de onde o tinha levantado. – E fica-se assim horas.
– Duas chávenas na sala – disse David. – Lavadas e postas a escorrer.
Francisco olhou para ele e percebeu.
– Quem toma três comprimidos sem saber não lava a loiça a seguir.
– Quem enche esta caixa? – perguntou David.
Ninguém respondeu.
4
10h20
Célia Freire tinha uma cara cansada e simpática, e falava com as mãos à frente do corpo, uma a segurar a outra. Recebeu-os à porta do segundo esquerdo e fez questão de lhes trazer café antes de se sentar.
– Eu tomava conta dela – disse. – Não era nada de oficial, sabe? Era vizinhança. Ela não tinha ninguém aqui.
– E o filho?
– O Hélder é um bom rapaz, mas tem a vida dele lá em baixo. – Baixou a voz, como quem não quer falar mal. – E teve uns anos maus, coitado. A mãe desabafava isso comigo.
– A senhora fazia-lhe as compras?
– Compras, farmácia, às vezes o banco. Ela já não gostava de mexer naquelas máquinas.
David estava sentado na ponta do sofá, com os cotovelos nos joelhos e o corpo inclinado para a frente.
– E os comprimidos?
– Também.
– A caixa dos sete dias, é a senhora que a enche?
– Sou eu. Todos os domingos à noite. – Célia sorriu um bocadinho, com orgulho. – Ela baralhava-se. Uma vez tomou a tensão duas vezes no mesmo dia e ficou tonta a tarde inteira. Desde aí faço eu.
– Só a senhora, certo?
– Isso mesmo, inspetor.
David ficou calado durante quatro ou cinco segundos. Na sala, ouvia-se o frigorífico.
– Tem chave da casa dela?
– Tenho, já há uns seis anos. A vida passa demasiado rápido, não acha?
– E ontem à noite? Esteve lá em cima?
– Não. – A resposta veio depressa, e depois veio outra vez, mais devagar. – Não. Vi-a ao almoço, levei-lhe o pão. À noite não subi.
– A dona Rosa recebeu alguém ontem à noite?
– Que eu saiba, não. – Célia franziu a testa. – Eu oiço a porta dela, sabe? Mora mesmo por cima da minha cozinha.
– E ouviu?
Hesitou.
– Ouvi passos, mas naquele prédio é tudo passos. Prédio antigo, sabe?
David levantou-se e agradeceu o café, que não tinha bebido.
5
12h30
O gabinete cheirava a papel quente. Paiva atirou o casaco para as costas de uma cadeira e sentou-se com as pernas abertas, à espera.
– Diz lá o que estás a pensar, que já vens assim desde o prédio.
– Estou a pensar que faltam dois dias naquela caixa e que só há uma pessoa no mundo que lhe mexe.
– E o motivo? Aquela mulher fazia-lhe as compras há anos, meu. Levava-lhe a farmácia. O que é que ela ganha com isto?
– Ela também lhe ia ao banco.
Paiva deixou-se cair para trás na cadeira e ficou a olhar para o teto.
– Paiva, pede os movimentos da conta dos últimos três anos. – David já tinha o telemóvel na mão. – E vê se o filho chegou.
6
16h20
Hélder Antunes chegou de Setúbal com a camisa do trabalho e os olhos vermelhos, e ficou vinte minutos na sala de espera antes de se sentir capaz de entrar.
Sentou-se e passou as mãos pela cara duas vezes antes de falar.
– Ela ligou-me no sábado.
David esperou.
– Disse-me que havia dinheiro a sair da conta e que ela não estava a perceber. Trezentos euros aqui, quatrocentos ali. – O homem olhava para a mesa. – Eu disse-lhe que ela se devia estar a baralhar. Disse-lhe que ia lá no fim do mês e que a gente via isso com calma.
– E ela?
– E ela disse que não estava baralhada coisa nenhuma. – A voz falhou-lhe. – Disse que já tinha percebido quem era e que não ia fazer disso um caso, que só queria falar com a pessoa primeiro. Era assim que a minha mãe era, inspetor.
Paiva, de pé junto à porta, olhou para o chão.
– E o senhor disse-lhe o quê? – perguntou David.
Hélder demorou.
– Disse-lhe para não fazer barulho por causa de trezentos euros.
O silêncio na sala durou o tempo suficiente para ficar estranho.
– Eu podia ter vindo no domingo – disse o homem. – São quarenta minutos.
David não lhe ofereceu o alívio.
– Podia – disse apenas.
Hélder limpou a cara com as costas da mão e ficou um bocado a olhar para o tampo da mesa. Quando voltou a falar, foi com a pressa de quem precisa de ser útil e já não tem em que o ser.
– Foi a Célia, não foi?
– Porque é que diz isso?
– Porque era a Célia que lhe ia ao multibanco. E era a Célia que lhe enchia aquela caixa dos comprimidos. – Olhou para cima. – O senhor já viu a caixa?
– Já.
– Ela contava-me isso ao telefone como se fosse uma coisa boa. «A Célia enche-me a caixa toda ao domingo, já não me engano.» – Hélder abanou a cabeça devagar. – Toda a gente naquele prédio sabia que a minha mãe não mexia nos comprimidos dela.
Depois pediu para ver o corpo, e disseram-lhe que ainda não era possível, e ele aceitou sem discutir.
Já de pé, à porta, parou.
– Vou precisar de entrar em casa dela, para tratar de papéis. Como é que se faz?
– Tem chave?
– Não. – Um sorriso pequeno e amargo. – Ela nunca me quis dar. Dizia que uma casa é de quem lá dorme.
7
19h20
Os movimentos chegaram ao final da tarde. Dois anos e sete meses de levantamentos pequenos, sempre no mesmo multibanco, sempre em dias em que Célia Freire ia à farmácia. Onze mil e duzentos euros ao todo, tirados a uma mulher que nunca comprava nada para ela.
Célia começou a chorar antes da primeira pergunta e continuou a negar durante quarenta minutos.
David deixou-a. Não levantou a voz uma única vez, não bateu na mesa, não lhe mostrou um papel que fosse. Fez-lhe perguntas sobre a farmácia, sobre os horários do autocarro, sobre o nome do médico de família, e foi apontando as respostas num bloco que nunca virou para o lado dela. De vez em quando parava a meio de uma pergunta e ficava a olhar para ela sem acabar a frase, e era aí que a mulher falava mais.
Ao fim de meia hora pousou a caneta.
– A senhora encheu aquela caixa no domingo à noite?
– Já disse que sim.
– De segunda a domingo, um comprimido por tampa, como faz há três anos. – David falava devagar, quase sem inflexão. – E esta manhã faltavam a quinta e a sexta.
Célia abriu a boca e não saiu nada.
– Onze mil e duzentos euros – disse David.
Foi aí que ela parou de chorar, e o que ficou por baixo das lágrimas era uma vergonha muito mais funda do que o medo.
– Foi no domingo – contou, já com a voz lisa. – Eu enchi-lhe a caixa com ela sentada ali à minha frente, na cozinha, como sempre. Não disse nada enquanto eu enchia. Deixou-me acabar, fechar a tampa e pôr a caixa no sítio. E só depois é que me disse que sabia.
Ficou a olhar para as próprias mãos.
– Não gritou. Ofereceu-me chá.
– E a senhora?
– Eu disse-lhe que devolvia tudo.
Meteu a mão na mala com as duas mãos a tremer e pousou em cima da mesa um envelope de papel pardo, cheio, dobrado ao meio e preso com um elástico.
– Levantei na segunda-feira. Onze mil e duzentos. – Empurrou-o para o meio da mesa. – Ia dar-lho no domingo, quando fosse encher a caixa. Queria dar-lhe tudo de uma vez para ela ver que era mesmo tudo.
David não tocou no envelope.
– E ontem à noite?
– Ontem à noite estive em minha casa. – Olhou-o de frente pela primeira vez. – Senhor inspetor, eu roubei àquela mulher durante dois anos e meio. Isso é verdade e eu assino onde for preciso. Mas eu ia devolver o dinheiro e ela ia perdoar-me, porque ela era assim, e eu ia continuar a subir aquelas escadas todos os domingos até ela morrer.
Ficou calada um instante.
– Eu não tinha de a matar. Ela já me tinha perdoado.
8
22h10
Comeram no café da esquina da Judiciária, daqueles que fecham à meia-noite e onde já ninguém pergunta nada. Paiva deu cabo de um prato de bacalhau à Brás e David remexeu no dele.
– Ela mente – disse Paiva, com a boca cheia. – Levanta o dinheiro na segunda, guarda-o na mala, e se a coisa correr mal tem um envelope para te pôr em cima da mesa.
– É possível.
– Mas?
– Mas ela levantou o dinheiro na segunda-feira de manhã. – David empurrou o prato para o lado. – A Rosa disse-lhe ao domingo. Se a ideia era matá-la, para quê levantar onze mil euros no dia seguinte? Deixava o dinheiro onde estava e ficava com ele.
– Para ter o envelope, Branco. Não sejas ingénuo, pá.
– Para ter o envelope ela teria de saber, na segunda de manhã, que ia matá-la na quarta à noite. – David abanou a cabeça. – Ninguém planeia um álibi de onze mil euros em dinheiro e depois esvazia duas tampas de uma caixa que só ela enche. Isso não é frieza nenhuma, Paiva. Isso é assinar o nome no sítio.
Paiva mastigou devagar e depois pousou o garfo.
– Então quem?
– Não sei.
– O prédio inteiro sabia da caixa. A própria velhota andava a contar a toda a gente que a Célia lhe enchia os comprimidos. – Paiva encolheu os ombros e voltou ao prato. – Coitado do filho. Nem chave da casa da mãe o homem tinha.
David estava a levar o copo à boca e parou a meio.
Ficou assim, com o copo no ar, durante três ou quatro segundos.
– Diz lá isso outra vez.
– Que o gajo nem chave tinha.
David pousou o copo sem beber.
– A porta estava trancada. Trancada à chave. E a chave estava no bolso do casaco dela.
– Estava. E eu já disse na altura que fazia sentido, ela ia sair e trancou.
– Ela não ia sair, Paiva.
– Ó Branco, a mulher estava de casaco abotoado e sapatos de rua. Ou ia pôr o lixo, ou ia buscar o pão, ou ia à farmácia de serviço, sei lá.
– Às onze da noite não se vai buscar o pão.
– Vai-se pôr o lixo.
– Vai. – David admitiu-o sem lutar. – E não havia saco nenhum na escada nem no patamar, mas isso não prova nada, porque ela podia tê-lo levado e despejado no contentor lá em baixo. A roupa não me serve de prova, Paiva. Nunca me serviu.
– Então estamos na mesma.
– Não estamos. – David inclinou-se sobre a mesa. – O Chico disse-nos uma coisa esta manhã e nós ouvimo-la mal. Ele não disse que ela caiu a dormir. Ele disse que ela não caiu.
Paiva parou de mastigar.
– Dezassete degraus e uma ferida só. Sem um ombro pisado, sem um cotovelo raspado, sem uma meia rasgada. – David marcava as palavras uma a uma. – Ela não desceu aquelas escadas de pé, não desceu aos trambolhões e não desceu a dormir. Ela nunca pôs o pé naquele lanço. Foi levada ao colo e foi deitada no chão do patamar.
Paiva pousou o garfo de vez.
– Foda-se.
– Se ela nunca saiu daquela porta pelo seu pé – continuou David –, então não foi ela que trancou aquela porta. Alguém a trancou por fora. E depois desceu, agachou-se ao lado de uma mulher que já estava morta e meteu-lhe a chave no bolso do casaco que lhe tinha vestido.
– Para parecer que ela tinha saído de casa.
– Nem mais. – David olhou para ele. – E agora diz-me quem é que precisa da chave dela para fazer isso?
Paiva abriu a boca e voltou a fechá-la.
– Quem não tem a sua?
– A Célia tem chave daquela casa há seis anos. – David já estava de pé, a pegar no casaco. – Se fosse ela, trancava com a dela, subia a casa e ia dormir. Não tinha de se aproximar do corpo. Não tinha de meter a mão no bolso daquela mulher.
– E as duas chávenas – disse Paiva, devagar, a chegar lá sozinho. – Alguém tomou chá com ela naquela noite.
– Alguém tomou chá com ela naquela noite, e não foi quem tinha chave. – David atirou o dinheiro da conta para cima da mesa. – Vamos falar outra vez com o filho.
Sexta-feira, 19 de maio de 2023
9
09h30
Hélder Antunes voltou a sentar-se na mesma cadeira e a pousar as mãos na mesma mesa, e desta vez David sentou-se à frente dele e não do lado.
– Obrigado por ter vindo outra vez.
– Eu quero ajudar no que for.
– Eu sei. – David abriu a pasta e não olhou para dentro dela. – Ontem o senhor disse-me três coisas e eu passei a noite a pensar em duas.
Hélder esperou, com as mãos quietas.
– Disse-me que a sua mãe lhe telefonou no sábado a contar do dinheiro. Disse-me que toda a gente sabia que era a Célia quem lhe enchia a caixa dos comprimidos. – David fez uma pausa muito pequena. – E disse-me que não tinha chave da casa dela.
– E não tenho.
– Eu acredito que não tem. – David inclinou-se um pouco para a frente. – E é isso que me está a chatear.
O homem franziu a testa, com uma cara honesta.
– Não estou a perceber.
– A porta da sua mãe estava trancada à chave e a chave estava no bolso do casaco dela, lá em baixo, a dois lanços de distância.
– Então ela trancou a porta e desceu.
– Foi isso que eu pensei às nove da manhã de ontem. – David encostou-se para trás. – O problema é que a sua mãe não desceu aquelas escadas.
Hélder franziu o nariz.
– São dezassete degraus, senhor Hélder. Uma pessoa que vai por ali abaixo chega ao fundo marcada em vários sítios. Bate com o ombro, com a anca, com o cotovelo, rasga a meia numa aresta. É física, não é sorte. – David falava devagar, sem nenhuma dureza. – A sua mãe tem um traumatismo na nuca e mais nada. Nem um joelho pisado. E tem as mãos limpas e as unhas inteiras, o que quer dizer que também não tentou agarrar-se a nada.
O relógio da parede fazia o barulho que os relógios daquelas salas fazem.
– Ela não caiu. Ela foi levada ao colo e foi deitada naquele patamar.
– Isso não…
– E se ela nunca saiu daquela porta pelo seu pé, então não foi ela que a trancou. – David não levantou a voz uma única vez. – Alguém trancou aquela porta por fora, com a chave dela. E depois desceu e voltou a pôr-lhe a chave no bolso.
Hélder Antunes tinha as duas mãos em cima da mesa e não mexia nem um dedo.
– A Célia Freire tem chave daquela casa há seis anos. Ela não precisava de tocar na sua mãe para fechar aquela porta. – David deixou passar dois segundos. – O senhor é a única pessoa que conhecemos que tinha de o fazer.
Nada.
– E havia duas chávenas de chá na sala, lavadas e postas a escorrer.
O homem ficou a olhar para as próprias mãos, e devagar, sem nenhum drama, sem nenhum gesto grande, começou a chorar outra vez. Desta vez de uma maneira diferente, mais funda e mais feia.
– Ela ia vender a casa – disse.
David não se mexeu.
– Ao telefone, no sábado. Contou-me o do dinheiro e depois contou-me isso. – A voz saía-lhe aos pedaços. – Disse que já não conseguia com as escadas, que tinha visto um lar em Alvalade, que vendia o andar e dava para ficar lá até ao fim. Disse-o toda contente. Disse-me «é o meu dinheiro, filho, espero que entendas».
– A Célia Freire disse-nos que o senhor teve uns anos maus. – David não mudou de tom. – Dinheiro?
Hélder anuiu.
– Deve quanto?
– Setenta e dois mil. – Encolheu-se na cadeira. – Há três anos que estou à espera daquele apartamento.
Ficou ali um bocado a respirar mal.
– Fui na quarta à noite para lhe explicar. Ela abriu-me a porta e fez chá. Eu falei, falei, falei, e ela ouviu-me sempre com aquela cara, e no fim disse que não. Disse que não outra vez, como se eu fosse pequeno.
– E a caixa estava em cima da mesa?
Houve um silêncio longo.
– Sim, mas eu não fui lá para isso – disse Hélder. – Juro-lhe que não fui lá para isso.
– Mas soube o que fazer com a caixa.
– Ela tinha-me contado ao telefone. – Levantou a cara, molhada, e havia ali uma coisa parecida com espanto. – Ela contou-me ao telefone que a Célia lhe andava a tirar dinheiro e que era a Célia que lhe mexia nos comprimidos. As duas coisas, na mesma chamada, na mesma tarde.
David ficou a olhar para ele.
– E usou isso para atirar as culpas à Célia, não foi?
– Esvaziei as duas tampas antes de sair – disse o filho. – A quinta-feira e a sexta. Foi a única coisa que pensei naquela noite toda.
10
12h05
Disseram-lho numa sala pequena, com o advogado oficioso ao lado e Paiva encostado à porta.
Célia Freire ouviu tudo sem interromper. Ia ser acusada de furto qualificado e de abuso de confiança, e o envelope continuava em cima da mesa, dentro de um saco com uma etiqueta.
Quando David acabou, ela ficou calada uns segundos.
– Então ele esteve lá em cima na quarta – disse. – Eu estava um andar abaixo.
– Esteve.
Foi então que ela chorou, e pela primeira vez em dois dias não era por ela.
11
23h40
David serviu-se do whisky de eleição e não acendeu a luz grande. O apartamento estava como estava sempre, com as paredes amarelecidas e os móveis onde alguém os tinha posto há muitos anos sem voltar a pensar no assunto.
Paiva tinha insistido em subir, com a desculpa de deixar uma pasta, e estava encostado ao balcão da cozinha com um copo que não pedira.
– Sabes o que me tira do sério nesta? – disse. – Foi ela que lhe deu a ideia. A própria mãe, ao telefone, a contar ao filho as duas coisas de que ele precisava, uma a seguir à outra.
– Ela estava a contar ao filho o que se passava na vida dela. – David rodou o copo. – É o que as pessoas fazem que me assusta.
– É o que as pessoas fazem com quem confiam. – Paiva bebeu. – E ele ouviu aquilo como quem lê um manual de instruções.
Ficaram os dois calados por um bocado, com a cidade a fazer barulho lá em baixo e a cozinha a cheirar a nada.
– E aquela mulher dois dias a ser olhada como a assassina – acrescentou Paiva. – Nós incluídos, meu. Eu incluído. Ao meio-dia e meia de ontem eu já tinha a coisa arrumada.
– Eu também.
– Tu tinhas menos.
– Tinha o mesmo. – David pousou o copo. – O Chico disse-nos tudo às oito e meia da manhã, em cima daquele patamar, e nós ouvimo-lo a pensar noutra coisa.
Paiva ficou a olhar para o copo.
– Foi preciso eu dizer um disparate a comer bacalhau. – Paiva riu-se, uma vez só. – Ó Branco.
– Quando dizes «Ó Branco» nunca vem coisa boa.
– Já viste o processo daquela mulher que anda a pedir para trabalhar contigo?
David olhou para ele.
– Que mulher?
– Está na tua secretária desde março, por isso não me venhas com essa cara. – Paiva sorria já. – Uma Rodríguez. Isabel Rodríguez.
– A Espanhola?
– Estás a ver? Foi exatamente isso que eu disse à Ângela que tu ias dizer. – Paiva apontou-lhe o copo. – Ganhei um café.
– Trabalhar com uma espanhola, não sei.
– Está cá há mais de vinte anos, meu. Fala melhor do que tu, e olha que tu escreves relatórios como se te pagassem à vírgula. – Paiva pousou o copo no balcão. – Catorze anos na casa. Homicídios há oito. E anda a pedir a toda a gente que a ponham contigo, o que já por si diz que a rapariga tem um problema qualquer.
David quase sorriu.
– Eu trabalho melhor sozinho.
– Tu não trabalhas sozinho, tu trabalhas até às três da manhã e depois vens para esta cozinha beber whisky com as luzes apagadas. – Paiva disse-o sem gozo nenhum, o que nele era sempre o sinal de que ia a sério. – Ontem à noite, naquele café, se eu não estivesse lá a dizer disparates com a boca cheia, tu ainda hoje tinhas aquela senhora presa pelo que não fez.
David não respondeu.
– Fazia-te bem teres alguém ao lado que não fosse eu – disse Paiva.
– Tenho-te a ti.
– Tens-me a mim três dias por semana e de mau humor. Isso não conta.
Pegou no casaco e foi até à porta. Antes de a abrir, virou-se.
– Lê o processo dela, Branco. É só isso que eu te peço.
A porta fechou-se e o apartamento voltou a ficar como estava.
David ficou onde estava mais um bocado, com o copo na mão. Depois foi até à sala, acendeu o candeeiro pequeno e ficou a olhar para a mesa de vidro, onde estava uma pasta cinzenta que ele tinha lá pousado em março e não tinha voltado a levantar.
Sentou-se. Puxou-a para a frente. Passou o polegar pelo canto, uma vez, sem a abrir.
Lá fora, um carro travou e seguiu.
Abriu a pasta.
Fim
Se gostaste deste conto, partilha. É assim que ele chega a quem ainda não conhece o autor.